Este empreendimento
de características peculiares começou na cidade
de São José dos Pinhais, no Paraná,
por iniciativa de um imigrante italiano, Ezígio Cini,
ex-membro da Colônia Cecília que, veio para
o Brasil com um grupo italiano anarquista, no século
XIX, fixando-se em terras concedidas por D. Pedro II, no
município de Palmeiras a três léguas
de Santa Bárbara, com a intenção de
construir um núcleo de acordo com a sua ideologia,
para fins políticos de demonstração.
Na colônia,
Ezígio Cini casou-se com a filha de outro anarquista,
Aldina Benedetti que era irmã de Evangelista Benedetti
e Catarina Benedetti, família pioneira que se instalaram
inicialmente no núcleo da colônia. E então,
Ezígio Cini e Aldina Benedetti Cini construíram
um moinho de fubá e já em 1º de outubro
de 1891 nasceu o primogênito do casal, o Hugo Cini.
Conviviam
numa associação de caráter libertário,
na tentativa de seguir os princípios anarquistas,
funcionando como uma comuna livre e independente. Tudo pertencia
às associações, e as terras seriam
dos que as cultivassem, prevalecendo a liberdade através
da igualdade política, econômica e social.
Nessa adaptação
ideológica, Ezígio Cini era considerado um
intelectual que defendia seus ideais, através de
um jornal o qual foi fundado em 1899 em Curitiba e era dirigido
por ele, o II Diritto Libertário, inclinado para
a divulgação anarquista, e que possivelmente
teria influenciado a classe operária curitibana,
pois nas suas páginas dirigia um “Apelo”
aos operários:
" Todos aqueles que receberem
maus tratos dos assim chamados patrões, são
convidados a informar esta administração afim
de que pelas colunas deste jornal possa valer os direitos
dos disfructados contra os disfructadores". O
jornal estampava um subtítulo: “Periódico
comunista – anarchico”, com o seguinte endereço:
Rua Silva Jardim, nº 60. Vários nomes cecilianos
figuravam entre os colaboradores. (Informações
cedidas pela Biblioteca Pública do Paraná).
Com o advento
da República, a decadência da Colônia
Cecília deu-se rapidamente, em virtude da dívida
colonial. Entrementes essa passagem, a amizade de Ezígio
Cini com um liberal antiflorianista, o qual ficou abrigado
em sua casa por vários dias, foi obrigado a fugir
para a Lapa – PR, onde ficou escondido em um poço
e posteriormente foi preso com o advento da República,
durante 40 dias. Sua mulher e filhos ficaram alojados em
casa de amigos, em Palmeira.
Retornando
a Palmeira já no ano de 1904, Ezígio Cini
associa-se a Carlos Chelli, também ex-integrante
da Colônia Cecília. Posteriormente, ambos dirigiram-se
para São José dos Pinhais, onde se instalaram
como fabricantes de bebidas.
Em Palmeira,
fabricavam licores, já em São José
dos Pinhais, em terreno arrendado, formaram a fábrica
de cerveja Maltinha (cerveja preta, doce e amarga).
Com a morte
de Ezígio Cini, sua mulher Aldina, assumiu a posição
na sociedade com Chelli, onde naquela época já
podia contar com a ajuda do filho mais velho, Hugo.
Não
existindo mais interesse em dar continuidade na empresa
o sócio Chelli vendeu sua parte na sociedade para
Hugo Cini que assume as diretrizes da indústria,
comprando também a parte de sua mãe e de seus
irmãos, já demonstrando desde cedo seu espírito
de liderança e de homem de negócios.
Os meios
de produção eram: uma máquina manual
movida a pedal, um tanque para a lavagem das garrafas e
tonéis de carvalho para a cerveja.
A matéria-prima
provinha da Tchecoslováquia, em caixas lacradas com
zinco, para evitar a passagem de umidade, indo para o moinho,
e depois para a fermentação, sendo o lúpulo
também estrangeiro.
A fermentação
levava de 25 a 30 dias e, para evitar o azedume provocado
pelo resfriamento, quando do acondicionamento nas pipas,
o empregado encarregado pelo serviço chegava a fazer
serão.
Enquanto
a fábrica ia de vento em polpa em São José
dos Pinhais, administrou-se um depósito em Curitiba,
num terreno recebido por herança, á fim de
ampliar o número de consumidores e melhor atendê-los.
Os resultados foram tão otimistas que este depósito,
logo depois foi transformado na fábrica de Curitiba
com o fechamento da fábrica em São José
dos Pinhais. Os resultados, aliás, foram tão
satisfatórios que a indústria, embora mantivesse
suas características tipicamente domésticas
e de capital fechado, contando inclusive com a colaboração
dos demais membros da família, lhes permitiu sobreviver
sem grandes sustos à grave crise internacional de
1929/1930.
Com a transferência
definitiva de São José dos Pinhais para Curitiba,
a fábrica de gasosa funcionava precariamente. Suas
instalações resumiam-se em um barracão,
com duas máquinas para a preparação
da gasosa e vasilhas para a lavagem das garrafas.
A instalação
da empresa Hugo Cini e Cia em Curitiba foi registrada em
4 de março de 1928 e em 1945, a empresa foi transformada
na razão social: Hugo Cini e Filhos Ltda., tendo
a participação da esposa de Hugo Cini, Amélia
Gobbo Cini, e de seus filhos: Carlos Ezígio, Carolina
Isolina, Aldina, Orlando, Espérdie, Nilo e Ginete,
e tendo à frente dos negócios como sempre,
o “ Velho Hugo”, como era chamado. A produção
artesanal prevalecia e utilizava-se praticamente a mão
de obra familiar – as pessoas iam se casando e colocando
os filhos pra trabalhar na fábrica, apenas dois empregados
no quadro funcional da empresa não pertenciam a família
Cini: um vendedor e um atendente para serviços gerais.
As vendas
eram realizadas por carroças que saiam carregadas
com 60 ou 70 dúzias no começo da semana, levando
capilé, aguardente, gasosa e cerveja. Como o processo
para a fabricação das cervejas era muito caro,
a fábrica parou de produzi-las na Segunda Guerra
Mundial. Ainda na década de 40, a família
Cini fabricava a famosa “colinha”, refrigerante
de 190ml, com gosto de cola, mais puxado para o malte.
Parte do
maquinário de Curitiba foi importado da Alemanha
- máquinas da marca Dickes -, para a produção
da gasosa. As outras máquinas eram usadas, compradas
aqui no Brasil, já por iniciativa de um dos filhos
de Hugo, Orlando Cini, o químico encarregado da fórmula
que era proveniente da Europa. A obtenção
desses meios de produção deu-se por financiamento.
A máquina Dickes levou 8 dias pra vir do Porto de
Paranaguá, pagando o frete em dobro pela dificuldade
no transporte.
A preparação
da gasosa era feita por Hugo Cini, enquanto que “preto
velho” girava a manivela de pressão para a
gaseificação. O produto era elaborado manualmente.
As essências procediam da Alemanha, nos sabores framboesa,
limão, abacaxi e gengibre, e o procaroli especial,
caramelo que vinha numa barrica de 200 litros e que dava
cor à cerveja, ainda que matérias-primas importadas,
resultavam em um produto de baixo custo.
No inicio,
não havia horas fixas de trabalho. No carnaval e
em dias festivos engarrafavam a noite inteira para conseguirem
servir ás imediações de São
José dos Pinhais, Campo Largo e Santa Felicidade.
A partir
de uma indústria doméstica e de capital fechado,
Hugo Cini administrava a fábrica, tendo o apelido
de “gritalhão”, por sua energia e pelo
seu caráter pessoal, porque a maioria dos empregados
era constituída por membros da família.
A gasosa
não sofria grande concorrência por ter uma
boa aceitação no mercado consumidor. Tomou
grande impulso após a guerra, com o aperfeiçoamento
gradativo da produção do capital conseguindo
através da administração de seu empresário.
Com o crescimento
constante da empresa, em maio de 1963 foi transformada em
Sociedade Anônima sob a designação de
Hugo Cini S.A. – Indústria de Bebidas e Conexos, já
então considerada como uma das expressões
da industria de refrigerantes de Curitiba, impondo-se sempre
pela alta qualidade de seus produtos, conhecidos além
das fronteiras dos Estados. Foi nesta década, mesmo
com uma promoção com o refrigerante “
colinha” (oferta de prêmios dentro da tampinha
de cortiça), a fábrica parou de produzir o produto,
devido a grande concorrência de outra “cola”.
Já as gasosas não sofreram com a concorrência,
por já terem conquistado um público fiel,
principalmente a conhecidíssima “Gengibirra”
continuavam satisfazendo os mais exigentes paladares, pois
Orlando Cini, que a partir da morte do seu pai em 1970,
passou a ocupar o cargo de diretor presidente da empresa,
mantendo absolutamente o mesmo cuidado nos critérios
de qualidade e de sabor.
Hugo Cini,
durante toda a sua existência, nunca esqueceu de atuar
na vida social e comunitária. Junto a sua árdua
e competitiva administração das atividades
empresariais, ainda reservava tempo para ser membro atuante
de várias sociedades beneficentes e recreativas,
sempre dedicando-se como um dos mais antigos e apaixonados
turistas paranaenses, investindo no progresso do Jockey
Club do Paraná, do qual era sócioacionista,
diretor, criador e proprietário de cavalos de corrida
de alta linhagem, inúmeros parelheiros famosos, legando
aos seus familiares descendentes a mesma paixão pelo
turfe americano.
Nesse contexto,
Hugo Cini foi um empresário inovador no seu campo
de ação, exemplo de homem de negócios,
de líder inconteste, de capacidade e honradez e seu
comportamento, muitas vezes egocêntrico e centralizador,
provou que a administração familiar não
é estática organizacionalmente, seus filhos,
genros e netos foram treinados para o exercício da
liderança industrial.
Orlando
Cini desde criança / adolescente passava horas e
horas dentro da fábrica e assumiu a presidência da
empresa em 1970. Foi um líder de nascença,
pois não teve noções especializadas
de como se lidera, espelhou-se em seu pai (Hugo Cini) e
seu avô (Ezígio Cini) que foi fundador da Hugo
Cini, demonstrou a confiança nos seus liderados e
os seus lideres à confiança a ele. Seu poder
empreendedor e o conhecimento de cada área da empresa,
toda a sua força e espírito realizador que
teve na sua vida, as decisões que tomava e que mesmo
sendo a longo prazo parecia que sempre tinha a certeza do
que e como iria o movimento do mercado. Sempre foi ousado
e acreditava nos seus objetivos, investiu na empresa: comprou
novos maquinários, aperfeiçoou o capital humano
dos seus colaboradores, desenvolveu novos sabores e categoria
(refrigerante diet) de produtos. Mas com o crescimento do
segmento e da empresa, surgiu a necessidade de profissionalizar
a administração da empresa e essa foi colocada
nas mãos de consultores externos, não pertencentes
à família Cini, e a família Cini através
do Conselho da Empresa participava das decisões empresariais
que eram propostas pelos consultores.
Em 1996,
a sede da indústria em Curitiba, já não
atendia as suas necessidades fabris, tanto em relação
à produção quanto à logística
de distribuição, pois estava localizada na
região central da cidade. Houve então a necessidade
de uma nova mudança e o local escolhido foi o município
de Pinhais, região metropolitana de Curitiba, onde
a indústria passaria a dispor de uma área
de 10.000m², sendo 6.000m² de área construída.
Junto a esta mudança de localização
simultaneamente ocorreu o retorno da família Cini
assumindo a administração, para desbravar
uma nova empreitada.
Este espaço
locado para ser a sede da empresa, sofreu algumas reformas
para poder acomodar todos os seus departamentos, que receberam
espaços maiores e com mais tecnologia para o trabalho.
Com esta estrutura maior, a indústria teve seus equipamentos
distribuídos de forma mais ordenada, estrutura de
armazenagem de matérias-primas e produtos acabados. A área de expedição também contou
com revoluções que ajudaram e muito na logística perfeita para a
eficiência na demanda de seus produtos.
A sucessão
na empresa, já no comando Orlando Cini, deu-se de
modo simples e de acordo com os interesses profissionais
de cada descendente e herdeiros da família Cini,
e hoje no ano de 2006, a direção está composta
pelas seguintes pessoas: Vera Lúcia Cini, filha de
Orlando Cini, como presidente e diretora comercial, Maria
Elisa Cini, como diretora administrativa e Nilo Cini Júnior
como diretor industrial ambos filhos de Nilo Cini.